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Agostinho e o problema do mal – da resposta ao mal e a vontade humana

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Por Matheus Negri

O problema do mal é uma questão metafísica, foi respondido assim pelos maniqueístas e por Plotino. É certo que para os discípulos de Mani a questão envolvia um dualismo entre o bem e o mal, e que em Plotino o mal é o não ser, a matéria.

Porém, para Agostinho seu problema metafísico envolvia Deus, pois Deus é o sumo Bem e criador de todas as coisas, não há nenhum bem supremo a não ser Deus. Ele não pode mudar, visto que não há nada que possa adquirir para melhorar sua condição de perfeição, logo, o mal não pode ser parte da criação divina. Pois afirma Agostinho (2005, p. 3): 

Deus é o Bem Supremo, acima do qual não há outro: é o bem imutável e, portanto, verdadeiramente eterno e verdadeiramente imortal. Todos os outros bens provem d’Éle, mas não são da mesma natureza que Ele. O que é da mesma natureza que Ele não pode ser senão Ele mesmo. […] Assim, pois, o ser de todos os bens particulares, tanto os maiores como os menores, qualquer que seja o seu grau na escala das coisas, não pode proceder senão de Deus.

Assim, tudo que existe provém de Deus, não há nenhum espírito ou corpo que tenha surgido que não seja da vontade soberana d’Ele. E todo o que existe foi feito ex nihilo, o fato de ser criado a partir do nada confere a sua criação o caráter mutável e passageiro.

Segundo apresenta o filósofo africano, Deus conferiu a toda sua criação, seja espiritual ou corporal, um modo, uma espécie e uma ordem. A qual garante sabermos que as coisas cridas são boas, se as três forem proporcionalmente grandes a criatura será um grande bem, caso contrário será um bem pequeno e se forem nulas a criatura não terá nenhum bem e por con não existirá, visto que todas são bens em alguma escala (Cf. Ibid., p. 7).

Então no que consiste o mal, visto que não pode ser oriundo de Deus o autor e provedor de todas as coisas?

A solução encontrada por Agostinho (2004, p. 187) é que todas as coisas que se corrompem são na verdade privadas de algum bem, como afirma o bispo de Hipona:

Por isso, se são privadas de algum bem, deixarão totalmente de existir. Logo, enquanto existem, são boas, e aquele mal que eu procurava não é uma substância, pois, se fosse substância, seria um bem. Na verdade, ou seria substância incorruptível, e então era certamente um grande bem, ou seria substância corruptível e, nesse caso, se não fosse boa, não poderia se corromper.

Isto aprendeu de Plotino (2006, p. 331), o qual afirmava que o mal não era somente uma corrupção do ser, mas o próprio não ser, a matéria. Nas palavras do filósofo:

O mal não consiste numa deficiência parcial, mas em uma deficiência total: a coisa que falta parcialmente ao bem é má e pode também ser perfeita em seu gênero. Mas quando há deficiência total, como na matéria, então existe o verdadeiro mal, que não tem parte alguma de bem. A matéria não tem sequer o ser que lhe torna possível participar do bem: pode-se dizer que esta exista somente e um sentido ambíguo; na verdade a matéria é o próprio não ser.

Podendo então chegar a uma explicação metafísica do mal, negando as conclusões dualistas dos maniqueus.

O mal seria, então, a corrupção de algum destes bens: a ordem, o modo e a espécie: “Ora, o mal não é senão a corrupção ou do modo, ou da espécie, ou da ordem natural. A natureza má é, portanto, a que está corrompida, porque a que não está corrompida é boa. Porém, ainda quando corrompida é boa. Porém, ainda quando corrompida, a natureza, enquanto natureza, não deixa de ser boa; quando corrompida, é má” (AGOSTINHO, 2005, p. 7). Desta maneira podemos dizer que o mal não pode ser concebido fora do bem e cada vez que falamos do mal estamos supondo um bem que esteja sofrendo alguma corrupção, visto que se a corrupção for total não existirá o bem e por con nem o mal. Aqui o paradoxo entre o bem e o mal, um não pode existir sem o outro, são dependentes e coparticipantes, só podem ser pensados nas suas relações mútuas de exclusão e inclusão.

Assim, Agostinho (2004, p. 190) chega a sua conclusão sobre a questão do mal dizendo: “Procurei o que era a maldade e não encontrei substância, mas sim uma perversão da vontade desviada da substância suprema – de Vós, ó Deus – e tendendo para as coisas baixas: vontade que derrama as suas entranhas e levanta com intumescência”.

Esta vontade desviada, a qual é apresentada pelo teólogo, é o mal moral, o pecado, o qual Deus não pode ser o responsável, pois é justo. Este tipo de mal o filósofo africano deixa a cargo da vontade livre do ser humano, que deveria estar sempre voltada para o sumo Bem, que é Deus. Porém ela se perverte buscando satisfazer-se nas coisas criadas, fazendo assim o mal. Fica evidente aqui a sua leitura de Plotino, o qual afirmava que a origem do mal moral estava no movimento contrário da alma que deixava seu caminho para Uno e seguia em direção a matéria. Como demonstra Agostinho (2011, p.68):

Cometer o mal é outra coisa do que menosprezar e considerarmos os bens eternos – bens dos quais a alma goza por si mesma e atinge também por si mesma, e aos quais não se pode perder, caso os ame de verdade, e ir em busca de bens temporais, como se fossem grandes e admiráveis. Bens esses, experimentados com o corpo, a parte menos nobre do homem, e que nada tem de seguro.

Como pontuei na introdução deste trabalho e pudemos ver no desenvolvimento do pensamento agostiniano até o momento como a questão da vontade ou liberdade está no cerne do debate, pois é dela que se faz possível à construção de uma resposta ao problema do mal. Deixando Deus livre da questão, não o culpando, o nosso teólogo a encerra na problemática da vontade ou liberdade humana. Vimos que as suas motivações foram em muito dirigidas por uma força de exclusão externa em relação aos maniqueus e sabemos que no decorrer de sua vida terá embates contra Pelágio e seus discípulos, os quais a partir de suas conclusões sobre o livre-arbítrio formaram uma doutrina que muda a economia do dogma da salvação ressaltando a autonomia da vontade e da liberdade humana diante da graça. Como estes embates se dão num período final de sua vida, preferimos neste trabalho nos ater as obras até asConfissões, pois na esteira de Almeida temos neste período suas dúvidas e inquietudes. Assim, sabendo que a vontade é o ponto central da questão devemos perguntar em que consiste à vontade para Agostinho?

Almeida coloca que a questão da vontade, liberdade ou livre-arbítrio sob a pena de Agostinho são quase sinônimos de modo que “ elas são radical e fundamentalmente inerentes à sua concepção de ser humano, mesmo se supondo o auxílio da graça para que ele se realize plenamente” (ALMEIDA, 2012, p. 127).

Para uma melhor compreensão da liberdade, vontade ou livre-arbítrio usaremos a obra O Livre-Arbítrio, redigido entre 387-395, a qual é um dialogo entre ele e seu amigo Evódio. O texto começa diretamente na forma de uma pergunta se é Deus o autor do mal, se o mal é uma substância criada por Deus ou um próprio Deus, a mesma questão que vimos no até o momento no livro VII das Confissões. Porém agora o teólogo africano se dedicará unicamente a desenvolver e explicar suas conclusões sobre o assunto proposto.

Para Agostinho Deus é o autor de todo o bem, o próprio Sumo Bem, como autor do bem jamais poderia praticar algum mal, pois deixaria de ser o Sumo Bem. Porém Deus não é somente um Deus de bondade ou amor, em seus atributos há também justiça e como Justo em si mesmo retribui a cada um segundo o que merece. Então se o ser humano padece de algum mal, um sofrimento, está recebendo a justiça por seus atos pecaminosos. Atos esses voluntários, onde cada um é responsável por suas más ações e tem por con a justiça divina (Cf. AGOSTINHO, 2011, p. 25).

Desta forma é a escolha, a vontade ou a liberdade do homem que o leva a pecar ou não, então ela pode ser separada em duas categorias de vontade: boa vontade e má vontade. A boa vontade é “a vontade pela qual desejamos viver com retidão e honestidade, para atingirmos o cume da sabedoria” (Ibid., p. 56). Desta forma Agostinho define a boa vontade e a coloca num patamar acima das riquezas, honras e prazeres do corpo. É a boa vontade que garante ao homem condições de fazer escolhas para o que é eterno e imutável de manter-ser na ordem universal da Providência divina. Pode-se dizer que se algum homem fez uso da boa vontade em sua vida e é virtuoso e por ser virtuoso fará bom uso das quatro virtudes cardeais que são: prudência, força, temperança, justiça. Da primeira sabe-se que é ter conhecimento do que deve ser desejado e do que deve ser evitado, na sequencia é a disposição da alma para desprezar os dissabores, a temperança é a disposição para reprimir ou rejeitar as coisas de maneira correta, e a última é a virtude de dar a cada o que lhe é de seu merecimento. Os pontos cardeais são diretrizes para um viver sábio e nobre de alguém que faz uso da boa vontade, assim se opondo as coisas contrárias ao bem, pois o melhor que possui são as coisas imutáveis e eternas (Cf. Ibid,. p. 58).

Quanto à má vontade esta se caracteriza pela concupiscência e é inimiga do bem, seu amor está para as coisas temporais e terrenas. Ao fazer uso das vontades o homem acaba escolhendo para si se terá uma vida feliz ou infeliz. É uma grande verdade de que todos os homens querem e buscam a felicidade, mas se a má vontade dominar as escolhas este cairá numa vida infeliz, como define Agostinho, “é feliz o homem realmente amante da boa vontade e que despreza, por causa dela, todo o que se estima como bem, cuja perda pode acontecer, ainda que permaneça a vontade de ser conservado” (Cf. Ibid., p. 60). Como podemos ver a busca de uma vida feliz é questão de todo ser humano, porém querer e fazer são coisas distintas. Todos podem querer uma vida feliz, mas se a buscarem na satisfação das coisas terrenas, não encontrarão, pelo contrário, se fizer uso da má vontade a certeza que terão é que só encontrarão tristezas e insatisfações. Já para conseguir realmente uma vida feliz se faz necessário o uso da boa vontade que o levará as virtudes cardeais e a pratica-las com felicidade e satisfação, encontrando a verdadeira felicidade.

No mesmo livro nosso filósofo coloca que a vontade humana é uma sustância, um bem, como outra qualquer da criação divina, então, possui modo, ordem e espécie. Sendo que sua corrupção a torna uma vontade má, mesmo assim ela não deixa de ser um bem. Agostinho coloca a vontade humana como um bem médio, pois hierarquiza os bens da seguinte forma: as virtudes são grandes bens já que não podemos usa-las para o mal e sem elas não podemos ser honestos, como bem médio coloca as forças do espírito, sem ela é impossível viver honestamente e como bens mínimos os corpos, sem eles podemos viver honestamente (Cf. Ibid., p. 138, 139).  Vemos então, que a vontade é responsável não somente pelo mal, mas também pela capacidade de praticarmos as virtudes, por isso não devemos suspeitar que ela não devesse ter sido dada por Deus ao contrário é ela que possibilita o caminho para Deus. (Cf. Ibid., p. 140). Então a vontade é o que possibilita ao homem ir em direção ao sumo Bem, ou ir em direção as coisas mutáveis.


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